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domingo, 7 de março de 2010

CONHEÇA-TE A TI MESMO

I – A LIBERDADE ENTRE A RAZÃO E OS INSTINTOS
1 – LIBERDADE E RAZÃO: SÓCRATES

1.1 – Das trevas à luz: Platão e a alegoria da caverna
Platão (427-347 a.C.) formulou uma história conhecida como alegoria da caverna. Nela, há algumas pessoas que estão lá desde crianças, amarradas pelas pernas e pelo pescoço, de costas para a entrada da caverna, impedidas de saírem dali. Da luz que vem de fora e que se projeta no fundo da caverna, estas pessoas vêem as sombras de outras pessoas que passavam carregando toda espécie de objetos fora da caverna, estes prisioneiros ainda ouvem o eco dos barulhos que vêm lá de fora, já que lá alguns caminham conversando com outros – os prisioneiros pensam, portanto, que a realidade é a sombra que vêem e o eco que ouvem.Estes prisioneiros faziam até concursos e concediam prêmios aos que distinguiam da melhor forma as sombras que eram observadas, aos que conseguiam primeiramente notar quais delas passavam e quais delas passavam acompanhadas de outras e, por fim, até de prever as próximas sombras que passariam. Se fossem libertados, os prisioneiros continuariam a pensar que as sombras eram, de fato, o que havia de real no mundo; porém, caminhariam para fora da caverna e teriam a vista ofuscada, pouco a pouco acostumariam-se com a luz e conseguiriam ver as imagens deles mesmos projetadas na água, veriam os próprios objetos, veriam a lua e as estrelas. Já acostumados, conseguiriam voltar os olhos ao sol e o veriam, compreendendo enfim que ele seria o autor das projeções que haviam no fundo da caverna.Ocorreu que um destes prisioneiros soltou-se e caminhou até a entrada da caverna, ele notou, então, que aquelas imagens vistas lá embaixo não passavam das sombras das coisas que estavam fora da caverna e que estas eram a realidade. Encantado com o que viu, ele retornou à caverna, já que sentiu enorme piedade dos seus companheiros de cárcere, contando tudo o que havia visto. Ele sentiu as trevas em seus olhos, já que havia se acostumado a olhar para a verdadeira luz, e tinha muita dificuldade em distinguir as sombras (seria preciso mais tempo para ele se acostumar com as trevas novamente). Os outros prisioneiros, então, consideraram que não valia à pena sair da caverna, defenderam-se daquele que tentou tirar-lhes de lá e até o mataram.Para Platão, Sócrates (470-399 a.C.), seu grande mestre, foi quem viu a luz, quem retirou a alma da escuridão e a iluminou para, em seguida, retornar à caverna e dizer que tudo que ali havia não era real, mas sombra, ilusão. Viu o que cada sombra representava melhor que ninguém porque viu, também, a sua verdadeira forma fora da caverna e voltou para dizer aos prisioneiros qual era a essência daquilo que eles viam. O que fez Sócrates foi iluminar seu espírito com uma sabedoria que o retirou das trevas, vejamos como é possível alcançar a luz!
1.2 – “Conheça-te a ti mesmo:” Sócrates e o poder da razão.“Conheça-te a ti mesmo”: na entrada do templo de Apolo era esta a mensagem que estava escrita. Era esta a mensagem também que Sócrates aconselhava às pessoas: ele gostaria que elas saíssem da caverna, da escuridão que havia em seus espíritos. Para alcançarem a luz, seria necessário, segundo ele, buscá-la. Porém, aonde buscá-la? A resposta era imediata: dentro de nós mesmos – “conheça-te a ti mesmo”.Para que as pessoas conhecessem a si mesmas, Sócrates fazia perguntas: era um perguntador incansável, e até irritante. Dialogava com todos sobre os mais variados assuntos e faziam-nos perceber que o que elas sabiam sobre esses assuntos não passavam de sombras, aparências do que elas, de fato, eram. Com a continuidade do diálogo, Sócrates ajudava as pessoas a lembrar do que já sabiam, já que ele pensava que a sabedoria estava dentro de nós, não fora; por isso, aconselhava: “conheça-te a ti mesmo”.Conhecendo a nós mesmos, tomaríamos ciência que a nossa alma racional seria um fator decisivo para a nossa felicidade: agindo de acordo com a razão, agiríamos de acordo com nosso ser – agiríamos como homens, não como animais. Não seríamos dominados pelos mesmos impulsos irracionais que dominam os animais, não seríamos dominados pelas paixões e pelos sentidos, seríamos senhores de nós mesmos e não agiríamos de modo desregrado. Para agirmos como homens, temos de saber o que somos: se somos racionais, nossa conduta também precisa ser.
“Conheça-te a ti mesmo”.Em suma, como procuramos o bem, tentamos nos afastar do mal: viver escravo dos prazeres é, para Sócrates, viver sem se saber o que se quer, é não-saber, é não usar a razão, é não agir como homem. Viver feliz e livre é viver senhor de nós mesmos, é saber o que se quer, é agir racionalmente, é procurar o bem para si mesmo. Eis o caminho para a liberdade na Filosofia socrática:
Conheça-te a ti mesmo:
- Quem sabe (usa a razão) o que é o bem, pratica-o;
- quem pratica o bem, é, realmente, um ser humano;
- a liberdade reside na ação racional: é a razão que nos livra do vício e nos conduz à felicidade.
Sócrates (470-399 a.C.)
Um exemplo: supondo que esteja muito calor e você foi a uma sorveteria, racionalmente se refresca com um sorvete e sabe que ele faz bem para você justamente porque lhe refresca. O que você fez foi um bem a si mesmo ao tomar um sorvete. E mais: libertou-se da sensação de calor. Porém, caso você aja desregradamente, tomando muitos sorvetes, o prazer transforma-se em um problema para o seu estômago. O que você fez foi um mal para si mesmo: ao deixar de usar a razão, deixou de agir como homem e tornou-se um escravo dos prazeres.
ATIVIDADE:

1 – Reflita sobre a alegoria da caverna e escreva:
a) a caverna é o mundo em que vivemos? Explique.
b) o prisioneiro que se liberta e sai da caverna é o filósofo? Explique.
2 – Qual era a mensagem que estava inscrita no templo de Apolo e que era dita por Sócrates aos cidadãos de Atenas? Por que ela é importante para sermos livres?
3 – Para Sócrates, o que é preciso para fazermos o bem para nós mesmos? Explique.
4 – Dê dois exemplos de ações livres, de acordo com a filosofia de Sócrates.